Dependente Químico
RECIFE DEPENDENTE QUÍMICO DO PRIVATISMO
“Pensar em um orçamento municipal arretado
pressupõe superar as práticas clientelistas e patrimonialistas tão presentes
nas relações políticas entre os poderes executivo, legislativo e a sociedade
civil, e determinantes na gestão orçamentária; reverter a forma de cobrança de
tributos, alterando também seus impactos socioeconômicos e ambientais; superar
o distanciamento entre as leis orçamentárias e os planos municipais de
políticas públicas (muitas vezes esquecidos nas gavetas governamentais);
inverter a atual lógica concentradora de definição de prioridades de gastos,
nas dimensões territorial, programática e socioeconômica, considerando as
desigualdades sociais entre as diferentes regiões da cidade e a discrepância no
acesso aos serviços públicos e de qualidade; e, por fim, reverter a lógica
privatista de provisão da ação pública municipal, de terceirizações e
concessões, com destaque aquelas feitas às OS’s – Organizações Sociais, que contribuem
sobremaneira com o desmonte do serviço público municipal.” – Recife
Arretado – Diretrizes para Um Plano de FeliCidade – Maio 2020.
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| Praça de Casa Forte |
A república brasileira nasceu sob o ideário utópico de que a coisa pública seria gerida para o bem estar do povo. Balela. A república foi imposta ao povo para acomodar uma outra forma de expropriação da mais-valia gerada pelo povo trabalhador. O Recife, que já foi um importante centro comercial e rentista, convivia nos tempos anteriores à república com a miséria e espoliação escravagista e a opulência de uns poucos tão bem retratada no simbolismo da Casa Grande e Senzala. Embarcou na esperança da república trazer dias melhores. Que não vieram.
Uma parcela grande de nossa população
sempre esteve à margem dos benefícios que a república poderia gerar. E o que
tem isso a ver com a nossa discussão aqui nas eleições municipais? A república
trouxe a novidade dos orçamentos estatais e é disso que trataremos aqui.
As elites políticas e econômicas locais sempre
souberam fazer uso da simbologia, e mais importante, da apropriação dos
orçamentos estatais para extrair a mais-valia, que fosse possível. Isso
é verdade para a Prefeitura da Cidade do Recife. O orçamento é público, mas a
apropriação é privada.
O privatismo do orçamento municipal é uma
realidade. Quando em 2001 o PT assumiu a Prefeitura do Recife, esse processo de
apropriação já existia. O governo do PT encontrou o carnaval privado pelo
modelo do PMDB. A CTU já havia seguido o mesmo caminho com o PFL na gestão
anterior. A coleta de lixo também já era privatizada, no pior dos modelos possíveis,
que é se pagar por um serviço terceirizado sem ter nenhum controle sobre o
serviço prestado. O governo do PT não conseguiu romper com esse modelo.
Todas as gestões recentes do PSB à frente
da Prefeitura do Recife trilharam o mesmo caminho.
A saúde é dominada pelas Organizações Sociais.
A educação idem. Na coleta de lixo, foi aprofundado o modelo. No saneamento
básico o modelo foi aprofundado com as Parcerias Público Privadas, como sendo um
grande avanço, explorando sempre o imaginário popular de que os “serviços
estatais não prestam”. Na questão do uso e ocupação do solo, o cartel
imobiliário apossou-se do Conselho de Desenvolvimento Urbano, de forma a
conseguir normativamente aquilo que não conseguiriam em uma gestão
transparente. No trânsito, o modelo é beneficiado por uma legislação que amarra
os recursos obtidos com multas, em projetos de interesses privados. Nos
transportes públicos, o domínio privado atravessa décadas e a Prefeitura sequer
tem acesso aos dados da mobilidade da população. Na assistência social, como
não há uma vantagem imediata a ser sugada pelos interesses privados, o modelo
de gestão do PSB simplesmente cortou os serviços, e não é um fruto do acaso o Recife
ter apenas 12 Centros de Recuperação e Assistência Social – CRAS.
Visto historicamente, o orçamento municipal
ao longo de todo o período republicano esteve à disposição dos interesses
privados. Funciona como uma dependência química de longo prazo e em constante
expansão. Não há receitas simples para sair desse ciclo vicioso. Uma parte da máquina
de prestação de serviço público está desestruturada, desaparelhada e
descompromissada. A desestruturação física é flagrante nas escolas municipais
caindo aos pedaços, nos equipamentos de cultura do município fechados para
reformas ou por falta de reformas. Mesmo o que está funcionando não tem a
aparelhagem adequada e necessária. Onde tem alguma estrutura funcionando e
gente para operar a máquina estatal municipal, o descompromisso é grande. É o
caso da Guarda Municipal do Recife, considerada um dos serviços mais “fuleiros” que a prefeitura oferece, conforme pesquisa realizada pelo projeto Recife
Arretado. Qualquer novo prefeito que chegar será cercado pelos “operadores do
orçamento municipal” com soluções milagrosas ou muito eficientes, vista pela
ótica da meritocracia instalada.
Este quadro de apropriação privada do
orçamento municipal funciona “naturalmente” em condições de geração de receita
municipal e de algum crescimento econômico. Agora imagine-se o que poderá
acontecer num quadro de depressão econômica, desemprego, muita fome e miséria. Os
interesses privados serão arrefecidos por uma situação de penúria? Seguramente
não. Deverá se acirrar a disputa pelo orçamento municipal, com os “operadores
do orçamento municipal” sabendo de antemão que a gestão pública estará muito
mais vulnerável. Como todo ciclo vicioso, esse poderá ser quebrado. Mas não será
uma tarefa para ser enfrentada com ingenuidade e crenças em boas intenções. O
que fazer é o debate que interessa a partir daqui.
Recife – 12/10/2020
José Ailton Lima, 69 anos, engenheiro, aposentado, ex-Secretário de
Serviços Públicos do Recife

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