A Postura Antirracista
Falando sobre Racismo Estrutural
Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel
você
perguntará por que cantamos?
Mario
Benedetti¹
¹https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/mario-benedetti-por-que-cantamos/
Este é um dos meus poemas favoritos. Penso que já o li e recitei mais de cem vezes entre esses lugares que cito: nos congressos, nas mesas das quais participei, e nos manifestos, sempre! E hoje de novo, de novo e de novo eu volto a lê-lo sem plateia, mas no silêncio do meu quarto enquanto escrevo este artigo.
Objetivando discutir sobre o racismo estrutural, e não
secundarizar o tema, os integrantes do Comitê Lula Livre de Casa Forte me abrem
este espaço como posicionamento político e antirracista. Justifica-se pelo
compromisso com a transformação social, pautada nos direitos humanos e na
direção da criação de condições dignas de vida para todas as pessoas, e pensar
processos para desmantelar as ideias românticas pós coloniais de que não existe
racismo no Brasil. É um processo decolonial dos corpos negros.
O
tema sobre Racismo estrutural revela os desafios sociais enfrentados na
atualidade em plena pandemia do Covid-19 onde as desigualdades sociais foram
escancaradas e encontram-se em ascendência, especialmente entre os corpos
negros.
A precarização das condições de trabalho e proteção social não só
desvelou, mas demarcou mais uma vez, o lugar historicamente construído no
imaginário social e coletivo da sociedade que as pessoas negras devem ocupar: O
lugar da subalternidade. Assim, lhes é negado o lugar de se insurgir, pois esse
lugar definido pelo colonizador (homem branco) como o não eu, o não semelhante
– Outridade – tese defendida por Grada
Kilomba em sua obra “Memórias da Plantação, 2019”. Logo, destituído de humanidade,
e assim objetificado – o sujeito que não se define, mas é definido.
Caminhando na mesma trajetória de pensamento, Achile Mbembem – em “Crítica da Razão Negra, 2013” – nos desloca para pensar sobre o alterocídio:
...[]que é uma forma de constituir o outro não como semelhante a si
mesmo, mas como um objeto intrinsicamente ameaçador, o qual é preciso
proteger-se, desfazer-se ou simplesmente distruir (quando não se pode controlar)”.
Ou seja, ao definir os corpos negros como agressivos, marginais,
serviçais, legitimando o lugar da animalidade, destituo-o de sua humanidade.
Eu optei por citar literalmente as palavras do Mbembe, pois o
diálogo posto nos remete aos acontecimentos atuais, como por exemplo, o
assassinato do João Alberto Fretas, de 40 anos, negro, por dois seguranças no
Carrefour em Porto Alegre, um dia antes do 20 de novembro, data que por força
dos movimentos sociais reivindicou a visibilidade da força e da resistência negra
protagonizada por Zumbi dos Palmares, em oposição contra hegemônica ao 13 de
maio, pois a abolição da escravatura não
foi dada pelas mãos brancas.
Para compreender a situação atual brasileira, de nada adianta se
não se compreender e situar a questão historicamente. E não há nada mais
simbólico e concreto do que trazer à memória os fatos relacionados às políticas
de encarceramento em massa, quando 64% de pessoas presas no Brasil são negras, como
consequência das “guerras às drogas” e a alta taxa de letalidade dos corpos
negros, pela justificativa de que o bandido bom é o “bandido morto”.
Além disso, também denuncio que o neoliberalismo é uma
reinvenção da escravização negra moderna. E que o sequestro das pessoas negras ocorrido no Brasil colonial, que
durou mais de quatro séculos, tem danos surpreendentes e, na minha visão, irreparáveis. E apesar dos avanços reparatórios de mitigar
do imaginário social esse processo de escravização, ainda precisamos patinar
nas estruturas racistas da sociedade.
É oportuno situar a violência estrutural tomada como violação de
direitos dessa população a partir de um processo de desestruturação dos modelos
sociais. Trata-se de um analisador fundamental para o entendimento das condições
de vida dessa população desprovida de seus direitos básicos de sobrevivência.
O lugar de direitos.
Mas
como enfrentar?
Não
basta dizer: Eu não sou racista! É preciso assumir uma postura antirracista.
“A esperança no devir nos une e a resistência torna-se nossa força”
Iris Maria é
mulher negra, psicóloga, professora e mestre em hebiatria/UPE. Ativista dos
movimentos antimanicomial e antiproibicionista. É do Setorial Estadual e
Nacional de Saúde do Partido dos Trabalhadores e atua no comitê Lula Livre de
Casa Forte.

Comments
Post a Comment