As Perspectivas do Capitalismo

Algumas Considerações Conceituais

A preocupação de conhecer o futuro encontra sem dúvida, sua origem na necessidade de se preparar para enfrentar as situações que se apresentarão. Com certeza, ela se deve também ao desejo, por vezes inconsciente, de ter pontos de referência, portanto de vincular os acontecimentos a cadeias causais, sejam elas de ordem física ou religiosa. As predições, qualquer que seja a sua natureza, projetam-se no tempo, dimensão em que o futuro e o passado se misturam.

Os homens de hoje, assim como os de antigamente, gostariam de conhecer antecipadamente os acontecimentos que vão produzir-se e o impacto que poderão ter sobre a vida pública ou sobre suas vidas pessoais ou profissionais. Sem dúvida, excluímos aqui toda predição ligada à vidência ou à astrologia, apesar dos sucessos que ainda hoje elas têm.

Hoje, os homens recorrem à elaboração de cenários. Governos e grandes corporações trabalham com técnicos e cientistas e tentam identificar as trajetórias possíveis para as diversas áreas do conhecimento humano. Em algumas dessas técnicas utilizadas, tentam calcular a possibilidade de ocorrência de alguns cenários.  Em outras, satisfazem-se apenas em admitir que certos fatos são possíveis, mas sem adentrar no cálculo de qual a probabilidade que tal fato venha a acontecer, e, consequentemente, geram um conjunto de cenários que possam acontecer, sem se atrever a estimar suas probabilidades ou chances.

Um governo que esteja preocupado com os rumos da geopolítica, isto é, com os rumos que poderão tomar as diversas relações internacionais, por certo elaborará os seus cenários de referência, não com a antiga visão da predição mágica, mas com a perspectiva estratégica de quais atos e medidas deverão ser adotados no jogo político internacional.

Assim agiu o governo do Reino Unido, através de seu Ministério da Defesa. Buscou outros países como parceiros nesse trabalho, pois entendia que a formação de alianças, ou declaração de recusas de cooperação, nasce no entendimento que se tenha das possibilidades futuras, ou pelo menos de suas trilhas.

Inicialmente vamos colocar um quadro de possibilidades geopolíticas elaborados sob os auspícios do Ministério da Defesa do Reino Unido. É fruto de um trabalho envolvendo mais de uma centena de cientistas e estudiosos e contou com a colaboração e apoio oficial da Austrália, Nova Zelândia, Alemanha, Finlândia e Suécia. Em todas as possibilidades apresentadas é assumida a continuidade do capitalismo como sistema de produção e acumulação de riquezas. Não é apresentado nenhuma avaliação das causas e efeitos que trouxeram à situação atual.

O documento em que se retrata essas possibilidades geopolíticas é intitulado “Global Strategic Trends – The Future Starts Today” e a sua apresentação abre com uma frase muito singela e auto explicativa dos interesses de quem patrocinou o documento: “Estamos em um ponto de inflexão”. Vamos passar diretamente os cenários retratados sem maiores explicações.

MULTILATERISMO: os Estados são os atores de maior influência na ordem global. Quase todos os Estados usam instituições multilaterais para endereçar os desafios globais, definir as estruturas legais e esclarecer as disputas. A boa governança global é a característica deste mundo.

MULTIPOLARIDADE: As grandes potências são os atores internacionais principais, que formam blocos com outras geograficamente próximas ou Estados ideologicamente assemelhados. Enquanto os Estados dentro de um bloco cooperam sob a liderança da potência maior, os blocos disputam entre si poder e influência.

FRAGMENTAÇÃO: os Estados, as corporações, as megacidades e outros atores não estatais, incluindo o crime organizado e grupos dissidentes, competem entre si pelo poder. A cooperação é rara e apenas surge quando há benefício maior para os atores interessados.

REDE DE ATORES: O poder é dividido entre uma variedade de Estados e atores não estatais. As corporações e as megacidades líderes são os principais atores não estatais, mas todos os atores cooperam para endereçar os desafios globais e fornecem a governança efetiva.

Esses canários traduzem uma idealidade mental. Atentemos que os cenários fazem alusão à mundos possíveis, onde o que muda é a forma de se relacionar dos mesmos Estados, corporações, megacidades, crime organizado e outros atores não estatais. Poderíamos questionar para que servem essas abstrações mentais. Fiquemos com uma resposta utilitária: se vários países do mundo gastam recursos para construir tais abstrações, alguma serventia elas devem ter. Uma das serventias é tornar mais nítida a complexidade que rege as ações e relações entre os diversos países do mundo e seus atores mais proeminentes.

Quando recorremos ao conceito de complexidade somos levados a uma ideia de que existiria um conjunto de fatos, coisas e circunstâncias que têm nexo entre si, isto é, são tecidas em conjunto. A complexidade de um sistema tem suporte nas características de aleatoriedade, ambiguidade, instabilidade, multiplicidade, imprevisibilidade e incerteza. A complexidade não deve ser entendida como uma função que expõe os fatos como se eles não tivessem gêneses ou motivações. A complexidade exprime a tessitura dessas gêneses e motivações em um dado momento. O conceito de complexidade sofreu mudanças ao longo da história humana e nas últimas décadas recebeu um tratamento matemático bastante sofisticado.  É evidente que a mente humana não dispõe de capacidade cognitiva para apreender a complexidade do mundo e mesmo com os modelos matemáticos disponíveis e a excelente capacidade de cálculo dos computadores atuais, alguns fenômenos não são previsíveis, principalmente no ramo das ciências sociais.

Em certos momentos da existência humana fomos compelidos a construir sínteses cognitivas que nos levaram a compreender melhor algumas das relações entre as coisas e os próprios humanos.

Conhecer como se dá o processo de acumulação de riquezas entre os humanos foi um salto memorável e uma janela ou portal importante na cognição humana de um aspecto da complexidade. Neste aspecto, os escritos de Karl Marx, Friedrich Engels e outros pensadores e atores políticos do século 19 deram à humanidade uma enorme contribuição.  Pode parecer pouco hoje, mas para a época em que o conceito e a compreensão do processo de acumulação capitalista foi se desenvolvendo e sua validade histórica sendo demonstrada, a existência humana passou por um ponto de inflexão. A pobreza e a miséria humana deixaram de ser vistas como algo natural e sem possibilidade de mutação.

É necessário compreender que parte da nossa cultura atual vem de um acúmulo de milhares de anos de experiências humanas. Essas experiências impuseram mudanças, transformações e adaptações, mas é evidente que temos algumas marcas muito fortes. O surgimento da cultura patriarcal se caracterizou pela coordenação de ações e emoções que fazem da nossa vida cotidiana, até o presente momento, um modo de coexistência entre os humanos que valoriza a competição, a guerra, a luta, a hierarquia, a autoridade, o poder, a procriação, o crescimento, a apropriação de recursos, e principalmente a justificação racional do controle e dominação dos outros por meio da apropriação da verdade. Existem os valores opostos a esses, mas o que salientamos aqui é a predominância de um sobre o outro.

Também dá para perceber que ao longo de milênios os humanos desenvolveram formas de poder ou ordens políticas (Jacques Attali), que tiveram maior predominância em certas eras, perderam força, mas que sobrevivem superpostas uma as outras. A mais antiga delas, a Ordem Ritual, surgiu a cerca de 30 mil anos, caracterizada pelo poder religioso. Em seguida, veio o surgimento da Ordem Imperial, que apareceu com mais nitidez a cerca de 6 mil anos, caracterizada pelo poderio militar. A mais nova é a Ordem Comercial que surgiu a cerca de 3,3 mil anos, caracterizada pelo mercado como seu principal centro de poder. Essas Ordens existem e subsistem intricadas umas as outras. Há fases da história humana em que o ritualismo tem predominância e outras em que o militarismo é mais proeminente. Interessa-nos ressaltar que todas essas ordens surgiram, cresceram e se desenvolveram sob a égide do patriarcalismo.

O capitalismo, como o conhecemos hoje, está dentro da Ordem Comercial. As fases do capitalismo, denominadas de mercantilismo e de industrialismo, são mais nítidas para nós. Hoje alguns cientistas sociais afirmam que estamos no capitalismo pós-industrial, outros dizem que vivemos a era do capitalismo financeiro.

Vamos assumir nesse texto que estamos vivendo o início do que poderíamos chamar de capitalismo de plataforma ou capitalismo de vigilância. Poder-se-ia alegar que é pueril esta definição, pois o fato marcante é que estamos vivendo sob a égide do capitalismo e o lastro de destruição deixada por esta concepção sobre a Terra não é algo que se possa desconhecer ou minimizar, ou que se precise adjetivar.

Capitalismo de Plataforma ou de Vigilância

Vamos caracterizar o conceito de capitalismo de plataforma ou de vigilância. Já vivemos algumas formas embrionárias do capitalismo de vigilância. Esse conceito é mais acentuado na prestação de serviços, onde forma de comercialização e de entrega dos produtos é controlada por plataformas e algoritmos. Mas a tendência será um espraiamento dessa modalidade para outras atividades humanas como médicas, jurídicas, projetos de engenharia e segue uma lista infindável. Na indústria, as plataformas e a robotização comandam cada vez mais a produção. O amadurecimento e aplicação intensiva da inteligência artificial nos processos de produção humana está apenas no seu alvorecer. Necessário se faz chamar atenção para o termo vigilância, que aqui diz respeito ao escrutínio permanente que os algoritmos exercem sobre cada uma das atividades humanas, de forma a antecipar os desejos e necessidades das pessoas, sem com isso retirar o caráter da vigilância policialesca.

Defendemos que devemos dar atenção a esta conceituação, pois ela define uma nova forma de relação, isto é, de nexo, dentro do conceito de complexidade. Precisamos dar atenção a este conceito porque é necessário, pelo menos, compreender a dimensão dos efeitos da expropriação dos recursos da Terra e seus limites para a admissibilidade da vida humana.

Alguns Fatos e Dados Significativos

De 1975 à 2020 a população mundial passou de 4,06 bilhões de pessoas para 7,8 bilhões de pessoas. No final do século 18, Thomas Malthus levantou o debate de que se devia fazer o controle populacional, uma vez que a população da Terra crescia mais rápido do a produção de alimentos. Marx chamava atenção para o fato de que este não seria o problema a resolver, pois a produção de alimentos suficientes para abastecer a toda a população da Terra era função do modo de produção e distribuição capitalista. De toda forma, parece que os dois pensadores não tinham em mente as armadilhas que a complexidade engendra. Malthus foi taxativamente negado poucos anos depois de sua publicação, tanto pela pobreza de sua abordagem matemática, mas principalmente pelo fato de que já no século 19 viu-se que a produção de alimentos era suficiente para alimentar a toda a população da Terra, mas efetivamente uma parcela considerável dessa população morria de fome por conta do processo capitalista de realização do lucro. Marx também está sendo negado, pois não temos só um problema de distribuição desigual, mas um limite imposto pela  capacidade de retirada e recomposição dos recursos naturais da Terra. O capitalismo vendeu com muita insistência a ideologia do consumismo, e, da igualdade de direito para todos desse consumismo – se bem que saibamos que esse direito nunca foi extensivo a todos. Todavia, mesmo não havendo essa igualdade, a promessa está no imaginário humano. Todos querem consumir mais.  Só que o planeta Terra não aguenta esse consumismo desenfreado. Esta é uma hipótese a se demonstrar, mas aceita aqui prematuramente.

Um outro fato relevante nessa discussão diz respeito ao tempo necessário para que as grandes transformações sociais ocorram. Em 1492 o mundo europeu passou por uma grande transformação com a descoberta do Novo Mundo, as Américas. Essa data simbólica é culminância de um processo que tinha se iniciado em 1412, quando a China abdicou, por problemas internos, de fazer a expansão marítima para outros continentes. Em 1421 o Infante Dom Henrique tomou conhecimento desses planos, e dos mapas prévios que os chineses já tinham elaborados, decidiu criar a Escola de Sagres no Sul de Portugal e investiu pesado na preparação de pessoal e no desenvolvimento de tecnologias de navegação. O feito de 1492 foi realizado pelo seu sucessor, ou seja, por gerações posteriores.

No final dos anos 1990 o mundo conheceu os primeiros produtos de uma nova era tecnológica, a computação digital e a formação das redes interligadas de computadores. Daí foi um salto para as grandes plataformas, e, posteriormente para os algoritmos que moldam e conduzem parte das atividades humanas atualmente. Mais recentemente, no processo plebiscitário do Brexit e nas eleições presidenciais do Brasil em 2018, vimos o poder de manipulação sobre os desejos de populações inteiras a partir de algoritmos direcionados para esses fins: o controle comportamental.

É importante salientar que os algoritmos também foram intensamente utilizados nos países asiáticos para controlar a disseminação da pandemia do vírus SARS-COV 2. Esse uso dos algoritmos, apesar dos benefícios para as populações, passou a ser tratado como uma ameaça pelos países e corporações do Ocidente.

Os algoritmos também têm sido pesadamente utilizados nas “guerras híbridas” desencadeadas pelos norte-americanos e europeus quando querem desestabilizar governos de outros países que não lhes são simpáticos.

O fato é que para a população em geral, essa utilização dos algoritmos é algo desconhecido. Quando muito, o assunto é tratado em documentários e ou filmes produzidos pelas próprias cadeias de desenvolvimento e de aplicação dos algoritmos. Nos últimos 30 anos o mundo passou por uma grande transformação tecnológica, agora com a tecnologia sendo usada no âmbito da manipulação dos comportamentos humanos. Outras transformações tecnológicas, como a inteligência artificial, estão em curso e alterarão significativamente a forma de operar do capitalismo, porém na mesma direção dos algoritmos.

Estamos passando por um intenso processo de alteração dos biomas e macro sistemas ambientais. Ficamos perplexos com a posição de algumas pessoas de negarem esses processos, ou na sua grande maioria nem se darem conta disso. Muitos cientistas alertam que nas próximas décadas muitas espécies animais e seus habitats irão desaparecer, pela ação deliberada daqueles que comandam o capital. Se isso já não é um fato, é pelo menos um marco com o qual estamos cara a cara: uma extinção em potência da natureza. Até agora tratamos a natureza como algo estranho ao humano, como algo que podemos dispor sem limites e com uma crença feroz de que podemos moldar a Terra aos nossos interesses, apenas humanos. A Terra já passou por outros processos de extinção e continuou sua trajetória. Alguns dizem, do alto de sua arrogância tecnológica, que precisamos fazer algo para salvar a Terra. O fato é que precisamos fazer algo para nos salvarmos na Terra.

O último fato a ressaltar aqui é que a história mostra que já vivenciamos diversos períodos de regressão do processo civilizatório, com o extermínio de seres humanos atingindo níveis assombrosos e com elaborados requintes de crueldades. Nestes processos já vividos e mensurados, pode se observar que a intensidade das regressões civilizatórias sempre acompanhou positivamente a evolução tecnológica das ferramentas e armas criadas pelo homem, isto é, quanto mais tecnologia, mais avassaladores são os impactos destrutivos provocados.

Algumas Hipóteses Assumidas Nessa Análise

No capitalismo estamos condicionados aos modos de viver patriarcal, isto é, valorizamos um conjunto de valores e atitudes que estimulam a crueldade, a perversidade e o domínio sobre os outros. Em termos históricos, somos recém saídos da escravidão humana com toda sua carga de horrores e os genocídios mal passaram a ser considerados como crime, passível de punição.  Apesar de haver um período em que a quantidade de guerras diminuiu substancialmente no mundo, passamos por duas grandes guerras, ditas mundiais, em que a tecnologia foi colocada a serviço do extermínio de seres humanos. Os anos que antecederam à essas duas grandes guerras foram marcados por intensas “corridas armamentistas”, que prosseguem no momento atual.

Estudos antropológicos sugerem que a humanidade viveu uma era onde predominava a cooperação, ao invés da competição. Há uma hipótese que houve uma bifurcação da humanidade, momento em que foi se constituindo o modo de viver patriarcal. Aceitamos essa hipótese como plausível. Contudo, precisamos salientar aqui que a bifurcação não é uma simples figura de linguagem, em que possa parecer que a humanidade vinha por uma trilha e resolveu seguir por outra. Esse conceito decorre da função logística, em que um determinado comportamento, em certas condições determinadas, pode assumir duas possibilidades de valores, com tempos de recorrência ou de repetição bastante variados. A dificuldade para nós, humanos, é que esse comportamento é o tipo impossível de se prever. Por outro lado, essa função matemática nos deixa aberta a possibilidade de que poderá haver uma mudança nos comportamentos humanos, que estejam mais próximos de uma humanidade apoiada em valores opostos ao do patriarcado.

A Ordem Comercial ainda predomina e é hegemônica. É fortemente vinculada ao fetiche da “mercadoria”. A partir da revolução digital, o fetiche da mercadoria foi remodelado.    A criação dos algoritmos permitiu essa reinvenção e a mercadoria passou a ser o tempo que estamos conectados à rede mundial de computadores e às plataformas de controle. A exploração capitalista continua a mesma, porém se tornou mais sofisticada, e a relação entre as pessoas e as coisas, as antigas mercadorias tradicionais, se entrelaçou de tal forma que hoje nossa privacidade é a própria mercadoria. Essa é uma hipótese difícil de entender para muitas pessoas, já que todas estão na rede de livre e espontânea vontade. E mais, não há como você viver socialmente sem estar conectado.

A Ordem Comercial se estabeleceu no mundo de uma forma geral, mas ganhou novas feições no mundo eurocêntrico. A Europa impôs uma hegemonia ao mundo do século 15 baseada nos domínios:  da transcendia, expressa na Pureza, que sustentou todos os genocídios perpetrados pela Inquisição da Igreja Católica e dos impérios que atuavam em simbiose com esta; do Estado-Nação, que através dos exércitos impôs o controle dos espaços; do Processo, que impôs o controle do tempo, principalmente dos oprimidos e explorados, que passaram a ver seus tempos e movimentos controlados diuturnamente. A hipótese aqui é que agora entramos em um novo tipo de controle, não só dos tempos e movimentos, pois estes persistem, mas da própria história privada de cada um.

Se a interpretação da acumulação capitalista abriu as perspectivas dos trabalhadores, ao mostrar para eles como se dava o mecanismo de captura da mais-valia do trabalho na indústria, também o fez para os próprios donos do capital. Além de já contarem com a propriedade dos meios de produção e com o controle dos tempos e movimentos dos trabalhadores, agora também contavam com uma boa interpretação do processo que dominavam. Da Europa, de onde partira os domínios de poder político, agora secundados por uma jovem cria desse poderio universal, partiu também as inovações tecnológicas que o novo ritmo de acumulação capitalista exigia, fortalecendo-a de uma maneira sem precedentes. Dos anos 1990 para cá o ritmo de acumulação tem sido tão frenético que não conseguimos ver alternativas à visão econômica imposta pelo capitalismo, em parte porque as transformações de longo prazo não são perceptíveis à nossa cognição, mais também porque as inovações na vida cotidiana se dão freneticamente.

Vemos o quanto é difícil aceitar a ideia de que um fenômeno natural, em grande escala, possa resultar de sua dinâmica própria em função de um comportamento matemático, tal como por exemplo a inversão do dipolo terrestre, sendo mais cômodo assumir perturbações vindas de agentes exteriores, mais ou menos misteriosas. Essas observações valem também para outras áreas do conhecimento: não é de modo algum evidente que a evolução das sociedades seja uma sucessão de grandes perturbações ou revoluções, que seriam por si sós suficientes para sair de um estado fundamentalmente estacionário – ou mesmo estável.

Parece mais que a evolução seja permanente, muito lenta em longos períodos, mas chegando a transformações espetaculares que se realizam em tempos muito curtos. Por isso, esse sentimento que estamos em um tempo de inflexão.

A cegueira cognitiva em relação às transformações históricas torna-se ainda mais emblemática quando examinamos a percepção humana acerca dos problemas de ordem global. A exploração e extração dos recursos naturais postos sobre a Terra, alguns que levaram milhões de anos para se formarem, coloca de novo a humanidade diante do dilema de Malthus. Dessa vez, a questão a se resolver não é só a da distribuição dos recursos naturais em forma de riqueza material para uns e de sobrevivência para outros, mas de identificar qualitativamente e quantitativamente se a Terra suporta o padrão de exploração a que está exposta. A hipótese aqui defendida é que, se já não ultrapassamos o ponto em que poderíamos reverter algumas situações de extinção em potência, estamos bem próximo disso.

Na corrida expansionista do capitalismo houve reações contrárias. Essas reações, muitas vezes exprimindo toda a crueldade humana, foram impondo limites e restrições aos comportamentos humanos mais violentos. A criação dos Estados Nações impôs, mesmo sob a égide dos capitalistas, alguns freios. Se a simples subjugação de povos não é mais aceitável pela força pura e simples das armas, a persuasão para o consumismo tornou-se a mola mestra do capitalismo. Os algoritmos desempenham papel fundamental, pois o controle agora é no comportamento humano. Uma vigilância permanente é mantida sobre os hábitos das pessoas. Formas persuasivas de fazerem as pessoas consumirem mais e mais surgem a cada dia. Visto por este ângulo, o capitalismo está em uma nova fase expansionista. A tecnologia é vendida como a chave para superar todos os desafios, inclusive o de livrar a espécie humana da morte individual. A ideia de criar uma espécie trans humana está saindo dos livros de ficção cientifica e entrando nos orçamentos de grupos capitalistas e de alguns Estados Nações.

O mundo sempre foi complexo, isto é, sempre foi uma teia de eventos tecida junta por toda humanidade. Agora colocamos mais velocidade no tear. O fato de compreendermos melhor o fenômeno da complexidade não significa dizer que estamos mais habilitados a lidar com ela. Ficamos mais confusos com tanta informação e com tanta velocidade na sua propagação. Não conseguimos ver alternativa ao modo de produção capitalista porque as transformações de longo prazo não são perceptíveis à nossa cognição. Todavia, a história humana tem demonstrado que em momentos próximos dos limites, a espécie humana tem sido capaz de redefinir as grandes questões e a reversão do consumismo desenfreado é uma possibilidade, inclusive usando os próprios recursos tecnológicos desenvolvidos sob a égide capitalista.

Conseguimos ver, pelo menos, algumas questões de escala global que precisam ser pensadas. A questão das mudanças climáticas é uma dessas questões. A sobrecarga populacional é outra e se relaciona fortemente com as mudanças climáticas e com a escassez de recursos naturais. A hiper vigilância digital e as consequentes formas de dominação e controle do comportamento dos povos está completamente alinhada com a hiper estimulação ao consumo. Por fim, somemos a isso a corrida armamentista, que de novo está em curso.

Juntemos essas questões, com toda complexidade e interdependência que as caracterizam, e veremos que diante daqueles que acreditam que é possível um mundo baseado em relações humanas onde predominem os valores opostos ao do patriarcado, há uma tarefa hercúlea.

Atualmente, a força mais poderosa que atua contra o pouco de civilização que temos é a disputa por recursos naturais, em última instância, um sub produto direto do crescimento da população humana.

Esta tensão crescente entre a demanda por recursos naturais e sua escassez levará o mundo a uma crescente instabilidade. Sob esta ótica, os rumos da civilização serão doravante, conduzidos por capitalismos de vigilância, numa aldeia global com cerca de 8 bilhões de pessoas, com a maioria vivendo sob os padrões impostos pela lógica predatória e competitiva do mercado, com Estados e democracias institucionalmente debilitados e recursos naturais declinantes. Dessa forma, não há como evitar que as instabilidades políticas acabem deslizando para conflitos regionais, com potencial de se alastrarem globalmente. Não é uma hipótese animadora do ponto de vista civilizacional, mas a corrida armamentista, entre os Estados Nações, nos levam a ela por decorrência.

Corrida Armamentista

A corrida armamentista é um capítulo à parte nesta nossa análise. Primeiro, porque a indústria de fabricação de armamentos constitui parte substancial do avanço tecnológico, para alguns países. Se há que se fabricar, há que se vender, e, consequentemente, há que se usar. Não existe lógica em se entesourar armamentos. Bilhões e bilhões de dólares são gastos anualmente por muitos países. Não se gasta bilhões de dólares para armar um país contra fantasmas. Em algum momento surgirão, ou serão inventados, inimigos reais para descarregar as armas. E aqui os algoritmos são de fundamental importância.

O tempo urge. A armadilha da extinção em potência está armada, seja pela expropriação indevida dos recursos naturais da Terra, seja pelos conflitos bélicos resultantes da disputa pelos recursos.

Não resta a civilização humana outra saída que não seja abandonar a visão mercadológica de mundo e assumir uma visão relacional que considere o entrelaçamento de todas as dimensões da condição humana.

A pandemia do vírus SARS-COV 2 trouxe à baila a possibilidade de uma disjunção entre o mercado e a democracia. Nos anos 1990 ouvíamos a pregação neoliberal de que bastava a existência de um “estado mínimo,” que cuidasse apenas de saúde, educação, segurança e diplomacia. Agora o mercado aumentou sua aposta: quer construir relações mercadológicas diretas com as pessoas e eliminar a presença dos Estados Nações, sem qualquer regulação ou intermediação. A regulação necessária será feita pelas grandes corporações e guiadas por algoritmos. Se irão vencer essa batalha ou não, é uma questão em aberto. Mas a aposta está feita e retratada no cenário de FRAGMENTAÇÃO esboçado pelo Ministério da Defesa do Reino Unido. Este cenário precisa ser frontalmente rechaçado pelas forças democráticas.

O império americano está em dificuldades. O capitalismo de vigilância, que surgiu nos anos 1990, parece ter pegado os EUA despreparado. A China não só se constituiu em um polo do capitalismo de vigilância, como soube usar bem os seus recursos no combate e controle da pandemia. Isso parece aos olhos americanos uma grande confrontação, quando eles não conseguiram dominar a pandemia e estão vendo sua economia declinar rapidamente. John Gray, um cientista social americano faz sobre o seu próprio país as seguintes considerações:

“Os EUA parece ter sido confrontado com outros polos na construção do capitalismo de vigilância e logo, talvez, entre num declínio absoluto em termos econômicos, desencadeando uma epidemia de crimes incontroláveis, com instituições políticas fracas ou paralisadas que levarão mais e mais na direção do isolamento e da desordem social. Uma hipótese possível é os EUA enfrentar uma metamorfose que fará dele uma espécie de proto Brasil, com o estatuto de potência regional ineficaz, cada vez mais distante de uma potência global.”

Não é uma citação muito lisonjeira ao Brasil, mas são os fatos da cena geopolítica que levaram a esta conclusão.

A última hipótese aventada aqui é que de agora em diante o mundo ficará mais horizontalizado, com algumas potências regionais orbitando ao redor de países como EUA, China, Rússia, Japão e de uma conflituosa União Europeia – descoordenadas e em crescente estado de tensão e instabilidade, isto é, o cenário de MULTIPOLARIZAÇÃO descrito pelo Ministério da Defesa do Reino Unido.

Algumas Interpretações Históricas e Atuais

Visto pelo ângulo chinês, 1412 foi um ano singular pois foi naquele ano que o Reino do Meio abdicou de impor o seu modo operativo da Ordem Comercial. Visto pelo ângulo europeu, 1492 foi o ano singular pois a partir da possibilidade de descoberta de novos mundos, e da imposição dos domínios de poder da transcendência, do Estado Nação e do mercado, foi se impondo ao mundo um modo operativo eurocêntrico da Ordem Comercial. Estas duas singularidades parecem que voltam a se encontrar no início do século 21.

Historicamente a Ordem Comercial foi simbolizada por vários centros comerciais: Antuérpia, Veneza, Holanda, Portugal, Espanha, Inglaterra e EUA. A partir da interpretação de Marx, da história da acumulação de riqueza, contrapontos dessas visões hegemônicas foram estabelecidos pela Rússia e China. Não se alterava substancialmente a Ordem Comercial, mas estabelecia-se uma visão diferenciada do modo operativo. Cada centro comercial utilizou ferramentas de transmissão de dados e de indução do comportamento humano para impulsionar os ideais do Progresso, da Razão e do Individualismo.

O embate atual se dá dentro da Ordem Comercial. A forma de operar do capitalismo já não atende aos preceitos do mercantilismo e do industrialismo. O embate agora se dá dentro do conceito do capitalismo de vigilância. A vigilância aqui expressa a forma como o capitalismo está passando a operar para manter o controle e a dominação das sociedades. Esta vigilância opera na direção tradicional de observar a vida privada e controlar aqueles que expressam resistência ao capitalismo, mas a forma mais importante para os verdadeiros controladores do capital é a observação dos comportamentos humanos e a permanente impulsão ao consumo.

O capitalismo de vigilância reivindica para si a experiência humana privada como fonte de matéria prima gratuita, subordinada à dinâmica do mercado e renascida com dados compartilhados. Esta interpretação do capitalismo de vigilância é de Shoshona Zuboff. Numa primeira olhada, parece teoria da conspiração. Observando com mais cuidado e comparando com o mundo atual das redes sociais, em que as pessoas entregam a cada momento seus instantes da vida privada, seus ódios, suas emoções, as suas necessidades, seus sonhos e a sua arte, vemos que é este o mundo em que vive hoje parte da humanidade. Primeiros a operar essa nova forma de relação capitalista foram as plataformas privadas. Estados Nação, como a China, se deram conta mais rápido do que os outros que esta forma de operar também atendia ao Estado. Partiram na frente e aplicaram este modo de operar ao poder estatal. Ganharam uma vantagem nessa nova investida do capitalismo. Não é sem razão que os EUA se preocupam tanto com a plataforma 5G dos chineses e com sua moeda digital, que só terá eficácia se operada por uma plataforma dessa envergadura.

Do ponto de vista Ocidental já está muito claro que as plataformas de redes sociais não querem e não têm nenhum apreço pelo Estado Nação forjado na revolução industrial. Querem uma relação direta com as pessoas sem a intermediação, regulação e controle estatal, mesmo que seja, de um Estado criado para servir aos ditames capitalistas. Por isso que o discurso ultra liberal hoje não é o do Estado Mínimo, mas o da não existência do Estado. Por isso, enfraquecer e desmoralizar a democracia burguesa é parte do discurso ultra liberal. Por isso a presença de um Estado Nação tendo suas próprias plataformas e algoritmos, como a China, não é aceitável para os ultra liberais. Mais uma vez Shoshona Zuboff vaticina: “Se destruirmos a democracia, tudo o que restará será esse tipo de governança comportamental, uma nova forma de absolutismo”.

Se é verdade que estamos sob a égide de uma cultura patriarcal e que o capitalismo está na sua nova forma de atuação, a da vigilância, então é lícito interpretar que não temos, no momento, uma seta que aponte na direção da emancipação humana. O que não significa dizer que esta direção não exista, mas apenas que nossa cognição não é capaz de identificá-la. A angústia de parte da humanidade, pequena, é compreender que a lógica patriarcal e capitalista, no seu modo de operar atual, aponta para uma regressão progressiva rumo à destruição.

A aposta capitalista continua sendo na tecnologia. A tecnologia é o instrumento para viabilizar a competição humana, o domínio e controle de uns poucos sobre muitos, mas não para evitar a queda no abismo cavado pela hiper exploração dos recursos naturais da Terra, e, pior ainda, pela hiper estimulação para o consumo. A aposta na tecnologia é mais uma ilusão humana do que uma forma relacional de resolver as grandes questões globais.

Vistas e analisadas as questões que o capitalismo coloca para a manutenção da existência humana sobre a face da Terra, somos levados a deduzir que qualquer nação isoladamente não poderá evitar os efeitos deletérios do modo de exploração capitalista, mas infelizmente na direção contrária, a ação deletéria de qualquer país pode piorar sensivelmente os efeitos sobre questões como mudanças climáticas e hiper estimulação ao consumo.

O Brasil nesta quadra histórica está dominado por uma das elites mais predatória do mundo. Se de fato estamos num ponto de inflexão, como previsto pelo Ministério da Defesa do Reino Unido, a contribuição do Brasil ao desastre poderá ser muito grande. Pela hiper estimulação ao consumo a que a população brasileira está exposta é praticamente impossível a vitória, pelo sufrágio do voto, de um programa de governo nacional que acene com bandeiras que apontem na direção das grandes questões globais. Um dos grandes diferenciais do Brasil em relação a outros países é a enorme diversidade de biomas e recursos naturais. Num mundo em que esta diversidade é ambicionada e estando sob o comando de uma elite predatória e entreguista como a que temos, seremos presa fácil na geopolítica internacional.

Algumas Questões para Reflexão

O efeito inercial das perturbações humanas já provocadas ao planeta Terra pela sobrecarga populacional e seus processos ainda é possível de reversão?

Há como frear a hiper estimulação ao consumo?

Estaremos de fato próximos a experimentar uma profunda regressão civilizatória?

Se o impulso patriarcal se renovou ao longo da Ordem Comercial, haveria ainda margem para o surgimento de uma nova onda que desse continuidade a esse impulso após o capitalismo de vigilância?

Diante da possibilidade da distopia destrutiva que nos reserva o capitalismo de vigilância, haveria algum percurso alternativo que pudesse nos desviar do colapso?

Qual o real poder de transformação da realidade dos círculos ou grupos de poder das altas esferas do capitalismo?

Se houve uma transformação cultural anterior – da sociedade matriarcal para a patriarcal – da sociedade de parceria para a sociedade de dominação – haveria possibilidade de nova transformação voltada para os interesses da vida humana?

Alguns Desafios para um Percurso de Transformação Desejável

É fato que o desenvolvimento capitalista tem se apoiado na tese de que há um realismo irrefutável neste processo. Uma sociedade baseada em relações humanas que valorizassem um conjunto de atos e comportamentos opostos àqueles valorizados pela cultura patriarcal é muito difícil de se afirmar perante os homens, pois suas mentes estão moldadas por milênios de condicionamentos. Mas também é mister ressaltar que as transformações de longo prazo são possíveis. Assim, não devemos cair no niilismo de que não é possível reagir ao que está acontecendo. É necessário demonstrar, justificar e sustentar radicalmente que este realismo do capitalismo é falso, fetichista, inconsistente e insustentável. Esta não é seguramente uma tarefa para poucas gerações, mas tem que ser iniciada e sustentada desde já.

A curto prazo a oferta que o capitalismo traz é o capitalismo de vigilância. O capitalismo não aceita mexer nos condicionantes do mercado. A oferta do capitalismo de vigilância é substituir a política, e em decorrência a democracia, pelas plataformas de mercado e pelos algoritmos de controle e dominação social. Rechaçar essa aposta é uma tarefa premente, que está a nossa porta. A aposta capitalista não é mais uma promessa ficcional. Toda a energia que dispõe, os que acreditam na vida humana, deve ser colocada de imediato nas batalhas para evitar que a política seja substituída pelas plataformas e algoritmos de mercado.

No início das lutas contra o industrialismo os trabalhadores pugnavam por uma rede internacional de intercâmbios entre eles. A globalização capitalista aproveitou as lições de Marx, ao tempo em que os trabalhadores se recolheram, sob diferentes circunstâncias. Não é nosso propósito fazer um julgamento moral desse recolhimento.  É necessário voltar a discutir a ideia de uma governança global, baseada em estratégias para as grandes questões globais. A dificuldade maior será construir um consenso sobre as estratégias globais a serem defendidas:

  1. uma estratégia de redução da sobrecarga populacional para mitigar as mudanças climáticas em curso;
  2. o resgate do sentido de comunidade, que foi destruído pelas relações individualistas e excludentes do mercado;
  3. a formulação de uma nova economia, que dê centralidade à vida e não a acumulação e ao consumo.

Síntese

No capitalismo de vigilância, a mercadoria, por excelência será o próprio tempo, artigo que uma minoria dos humanos, os privilegiados e detentores dos meios de produção e de controle das massas, terá cada vez mais em abundância, num mundo em que o trabalho será progressivamente realizado pelas máquinas comandadas pelos algoritmos e de uma grande massa humana sem acesso aos itens básicos da sobrevivência humana.

Parece haver um consenso que o sistema capitalista conseguiu, por meio da doutrina neoliberal em simbiose com a tecnologia, transmutar-se simultaneamente, em todos os países, para um capitalismo de vigilância, cada vez mais pouco afeito aos regimes democráticos.

Também parece que a contradição interna ao capitalismo se agudiza cada vez mais, pois as máquinas e algoritmos podem produzir cada vez mais com menos gente. Nessa lógica a massa dos sem trabalho crescerá a níveis estratosféricos e continuará tendo as mesmas necessidades básicas de água e alimento, mas não se constituirão em parte do mercado.  O capitalismo espera que a tecnologia resolva esse problema, mas não indica as soluções possíveis. Enquanto isso, a corrida armamentista prossegue e os conflitos por recursos naturais se avolumam. A corrida armamentista é um fato que não pode ser menosprezado.

Embora a realidade, colocada de nossa perspectiva, seja sombria, precisamos refletir sobre as crenças e valores que nos trouxeram até aqui e compreender que não estamos irremediavelmente condenados às diversas formas de servidão e a cegueira cognitiva, impostas pelo patriarcado e sua consequência direta, o capitalismo.


José Ailton Lima, engenheiro, aposentado.

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