Resumo da Entrevista de Lula a Luis Nassif
Desvendar o pensamento de uma figura política do porte de Lula não é uma coisa simples. Primeiro porque, como líder político, a sua fala é sempre afirmativa. O líder político não se permite dúvida. E por que é importante se compreender e desvendar seu pensamento? Porque é a partir de sua fala que se apreende as suas propostas políticas, as suas visões e a sua potencialidade para transformação de mundo.
Um panorama geral de suas respostas nos permite capturar alguns elementos importantes. A listagem de alguns desses elementos não se constitui em uma valoração de juízo, são apenas constatações.
Suas respostas são sempre na primeira pessoa do singular: eu. Tem uma crença em Deus e sempre liga os seus feitos a Providência Divina. É reto e firme naquilo que ele entende como relações de cortesia e cordialidade com outros líderes mundiais. Se encanta com o respeito e elogios desses líderes à sua liderança.
Entende que os Estados Unidos da América não querem o protagonismo do Brasil na América Latina. Não explica o porquê desse comportamento dos americanos. Entende que a Europa não quer que o Brasil se desenvolva tecnologicamente, mas também não explica o porquê dessa negação a um direito brasileiro.
Entende que a presença e participação da China na economia da América Latina perturbou a visão geopolítica dos americanos, que desencadeou uma reação contra os seus governos populares, eleitos democraticamente. Vê, claramente, que a Internacional Socialista é eurocêntrica, e que o Brasil tem pelo menos cem anos de atraso em relação às conquistas da social-democracia européia.
Compreende a questão da participação do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) como sendo indevida na atual circunstância geopolítica, pois entende que o Brasil deve priorizar os acordos dentro da América Latina. Compreende que a social-democracia européia é muito próxima do neoliberalismo e, numa visão muito singela, disse que os sociais-democratas alemães são muito parecidos com Angela Merkel.
Tem uma visão muito clara do papel de antagonismo que a oposição tem que ter em relação ao governo, qualquer governo, expressando isso numa assertiva firme e consistente: não existe oposição de resultado nem propositiva, tem que ser antagonista.
Importante ressaltar o aspecto das crenças mais fortes e por ele ressaltadas. Vê o seu papel na política como uma missão e credita essa descoberta a Marisa que um dia lhe disse: não se queixe, cuide da sua missão que eu cuido dos filhos.
Acredita, o que descobriu com a política, que é possível construir um novo país: mais justo, soberano e orgulhoso de seu papel no mundo. A questão do orgulho de ser brasileiro é uma coisa muito forte no pensamento de Lula, que ele próprio traduz de forma reflexa: “comigo, o povo brasileiro compreendeu que podíamos ser imprescindíveis para o mundo”. Outra crença muito forte em Lula é a de que os pobres precisam estar no orçamento da União, transformando-se assim em solução e não em problema como o vêem os liberais e neoliberais. Ele acredita no mercado, mas de uma forma muito diferente do liberal clássico: o mercado só tem valor se a economia girar, se o dinheiro trocar de mãos e passar pela mão dos pobres.
Carrega consigo algumas decepções muito fortes. Com as forças armadas brasileiras, por entender que fez todo o possível para modernizá-la e, torná-la uma força militar respeitável aos olhos do mundo. Com o Ministério Público, pela razão de que o via como uma instituição capaz de canalizar os direitos do povo e que, sob o mando de Moro e Dallagnol, deixou que se formasse uma quadrilha de salteadores e saqueadores. Reconhece que a grande imprensa “faz a escuridão” junto à população e que errou ao não tratá-la com os devidos cuidados. A grande imprensa amamentou os golpistas do Ministério Público, segundo ele.
Carrega um sentimento de indignação muito forte com a mentira. Em diversos momentos da entrevista expressou isso, contra a Polícia Federal que invadiu sua casa, revirou tudo, não encontrou nada e não teve a dignidade de declarar isso publicamente; contra o Ministério Público que o acusou falsamente e que sustenta essa mentira até hoje. Essa parece ser a parte mais delicada da entrevista, pois reduz tudo a um jogo de mentiras, que pelas respostas dadas anteriormente pode-se deduzir que o jogo de mentiras é o pano de fundo para um jogo político muito mais amplo. Além do mais, neste ponto Lula ressalta o bilhete que recebeu de Sarney: “essas instituições (MPF, PF e RF) não elegem um vereador, mas têm força para derrubar um presidente”. Isso já tinha sido demonstrado no episódio do mensalão, e ele próprio já tinha alertado no Encontro do PT logo após a eleição de Dilma, que estava em curso um plano para criminalizar a política e principalmente o PT.
A entrevista também traz revelações importantes sobre a forma de exercer o poder. Segundo Lula, três perguntas fundamentais para qualquer programa ou projeto proposto são:
- a) isso é bom para o Brasil;
- b) isso é bom para o povo;
- c) isso é bom para o governo.
Se a ideia, programa ou projeto fosse aprovado, ele se transformava em projeto de governo, não existia projeto de ministro. Existia política de governo, programa de governo e política pública. A forma de indicação de pessoas para cargos também foi discutida, com ênfase na questão de Henrique Meireles para o Banco Central, com uma resposta, até certo ponto seca, de que se governa com a correlação de forças que se tem.
Ao final, conta a história da visita que ele e Dona Marisa fizeram a Roberto Civita, quando este estava no mesmo hospital que ele. O cumprimento de Roberto Civita foi: “Dona Marisa, a senhora deve estar com muita raiva de mim pelas mentiras que as minhas revistas inventaram sobre o seu filho”. Ao que Lula respondeu: “Não viemos aqui para tratar dessas questões, viemos fazer uma visita e saber de sua saúde”.
Fecha a entrevista no tom que conhecemos do velho Lula: “eu sou assim, não guardo mágoa de ninguém, e, em nome de Jesus, quero dizer que o Brasil não merece um presidente como Bolsonaro”.
Por José Ailton Lima, engenheiro, aposentado, Recife, 26 de fevereiro de 2021 - Resumo da Entrevista de Lula a Luis Nassif na mesma data.
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