Tanto Mar
Em 25 de Abril de 1974, após 47 anos, o povo português viu finalmente eclodir a revolução que jogou a ditadura portuguesa no lixo da história. De quebra, a revolução apertou o gatilho para a independência das colônias portuguesas na África. Grândola, Vila Morena (Zeca Afonso), foi a música senha que desencadeou o movimento. Tocada pela Rádio Renascença a partir da meia-noite, a música chegou aos quartéis:
“Grândola Vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti ó cidade...”
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Pousada Tanto Mar em Arraial do Cabo, Brasil |
E chegou aos soldados que queriam mudanças no papel das forças armadas. Com a adesão dos soldados a carnificina foi evitada e a vontade popular ficou fortalecida. Até hoje, em manifestações populares, a canção é entoada como um hino.
Chico Buarque homenageou a festa portuguesa em Tanto Mar que recebeu duas versões. A primeira, em 1974, foi censurada pelos milicos:
“Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente alguma flor
No teu jardim ...”
A segunda versão com “ajustes” veio em 1976 para ser liberada pela mesma censura(?). Esta versão é mais conhecida:
“Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente nalgum canto de jardim...”
Na 1ª ou na 2ª versão a mensagem estava clara. A Revolução dos Cravos era um incentivo à insurgência tão necessária aqui quanto foi lá, ó pá!
A efeméride nos remete à importância da ação conjunta da sociedade no combate ao obscurantismo crescente, à violência institucional, ao desmonte do Estado, às agressões ao meio ambiente, à tentação pelas rupturas institucionais e o apelo ao autoritário.
Antes, em 1973, Chico atirou no que viu e acertou no que desejou ver em Fado Tropical:
“Ai, esta terra ainda vai cumprir o seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal...”
Quase 50 anos depois, ainda patinamos para consolidar a nossa frágil democracia e, enquanto isso, Portugal, livre do imperialismo colonial, tornou-se um imenso ideal.
Evertom Ermida

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