Por que Não Me Ufano (*)
Gostaria de pensar que o "movimento" de jogadores e comissão técnica seja motivado pelo respeito à vida, por entender que a Copa pode se tornar um vetor de contaminação e, no limite, porque desejam expressar a desaprovação ao governo e ao Capitão.
Mas, gato escaldado, estimo que a raiz do tal "movimento" é apenas mais uma demonstração de individualismo e gestão dos interesses pessoais.
Os brasileiros que atuam na seleção (quase a totalidade) atuam em clubes europeus. Por lá estariam em férias no movimentado verão do hemisfério norte.
Por aqui, jogarão por laranjas numa mixuruca Copa sem valor para suas carreiras, para seus empresários e para os seus contratos publicitários.
Vendo o copo meio cheio, a "movimentação" traz desconforto ao presidente e, se levada à termo, mitigará os riscos associados à disseminação do vírus fatal.
Tão importante quanto, talvez traga racionalidade ao debate.
Seja por um interesse mesquinho, egoísta ou por algum altruísmo até aqui impensável, entendo que o gesto tem o mérito de ser uma posição de consenso no grupo e sobre a qual não parece haver nenhum que se poste sobre o muro.
Um avanço em se tratando do esporte e uma raridade no mundo do futebol. Que o exemplo, prospere.
(*) Por que Não Me Ufano do Meu País é o título de um livro de Afonso Celso (1900). O livro descreve a imagem do brasileiro cordial e de um país feito de riquezas e belezas inigualáveis.
Exatamente o que não precisamos hoje é de uma copa para dar sentido a um brasileiro superior vestindo verde e amarelo e cantando o hino nacional.
Evertom Ermida, 05/06/2021
Contraponto
Querido amigo, me permita mais um contraponto em relação à questão da Copa América.
Também gosto de esportes e do futebol em particular. Lembro com saudades das nossas peladas das quintas-feiras quando trabalhávamos juntos.
Mas o que está em discussão aqui não os meus gostos e prazeres.
Diante da possibilidade (real) de agravamento das contaminações e do risco de novos colapsos nos hospitais e UTIs, acho que seria importante e útil (utilitarismo) não minizarmos essa decisão que agora parece irreversível.
Vamos supor que as 10 equipes que envolvem, entre atletas, comissão técnica, apoio e dirigentes, cerca de 50 pessoas.
Essas pessoas serão transportadas para locais de treinamento e para os estádios nos dias de jogos, e nós translados se houver mudanças de cidades. Esse transporte será escoltado pela polícia. Estamos falando de dezenas, talvez centenas de deslocamentos com comboio policial. Os hotéis deverão receber policiamento assim com os locais dos jogos. Tudo isso será pago com os impostos que pagamos e que serão redirecionados para fazer frete à demanda extraordinária. A PM de SP estimou em R$ 1,35 mi para 4 jogos.
Ainda que o custo venha a ser bancado pela Comembol, melhor fariam se utilizassem esse $ para comprar vacinas, EPIs, oxigênio... não acha?
Mas a realização da Copa América no Brasil nem precisa da questão custo para ser inadequada.
É um acinte afirmar que não há riscos. Ou que (quais) controles serão eficientes. Haverá aglomerações nos jogos do Brasil nas casas, nas ruas e no entorno dos estádios.
E a PM, que agiu com brutalidade para conter a manifestação em Recife, certamente não irá às ruas para conter os torcedores vestindo "verde e amarelo".
Os 4 estados (DF, MT, GO e RJ) onde os jogos serão realizados, estão entre os que menos vacinaram cujas taxas de internação ultrapassam os 80%.
Pelo que leio nas matérias a respeito do assunto há muita gente no esporte apoiando a Copa.
Todos temos direito a gostar ou não de ver os jogos. Só não deveria ser objeto de discussão se é pertinente ou não realizar o evento aqui e agora. Definitivamente não faz o menor sentido.
Evertom Ermida, 02/06/2021
Derrota de Bolsonaro: jogadores do Brasil decidiram não jogar a Copa América:

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