Cenário Eleitoral 2022

Em pesquisa realizada pela CNT – Confederação Nacional dos Transportes, em setembro de 2020, foi detectado que 12,8% dos entrevistados têm elevado grau de interesse na política, enquanto 33,4% responderam que tem um grau de interesse apenas moderado.  A definição de moderado, em termos de pesquisa, é muito ampla e difusa pois pode variar desde se interessar por política semanalmente, mensalmente ou esparsamente. Em pesquisa, mais ou menos da mesma época, a Vox Populi detectou que cerca de 20% dos pesquisados estão continuamente engajados no debate político. Vamos assumir a hipótese de que os 20% detectados pela Vox Populi esteja mais aderente à nossa realidade participativa. 

Vamos considerar 100% dos eleitores aptos a votar. Todas as proporções serão referidas a estas referências.

Uma série de estudos consultados mostram que 40% dos brasileiros aptos a votar declaram não ter nenhum interesse pela política.  Na última eleição presidencial o não engajamento dos eleitores se aproximou de 30%, entendido o não engajamento como abstenções, votos nulos e brancos. Assumimos a hipótese de que, dos 80% restante dos eleitores, cerca de 30% não se engajarão ao debate político das eleições de 2022. Vamos detalhar um pouco mais essa hipótese de trabalho.

É provável que este número se mantenha, um pouco pela descrença e desencanto com a política, que parece ser um fenômeno mais ou menos generalizado no Ocidente. Mas há também a hipótese de que haja uma pequena redução nesse percentual. Vamos analisar esta questão partindo dos dados oficiais das eleições presidenciais de 1989.

Comecemos por analisar os números da eleição presidencial de 2018:

  • Eleitorado Apto: 147.305.152 (100%)
  • Abstenções: 31.371.701 (21,3% do eleitorado)
  • Válidos: 104.838.753 (70,74% do eleitorado)
  • Branco: 2.486.593 (2,14% do eleitorado)
  • Nulos: 8.608.105 (7,43% do eleitorado)
  • Bolsonaro: 57.797.848 (39,23% do eleitorado)
  • Haddad: 47.040.905 (31,93% do eleitorado)

O agregado de eleitores que se abstém, vota nulo ou branco é o que chamamos aqui de “não-engajados”. Vamos analisar este bloco observando as peculiaridades de cada parte do bloco. Em seguida analisaremos os “engajados”, isto é, aqueles que vão às urnas com uma decisão firme de voto em um candidato.

Cada eleição tem sua própria dinâmica, mas alguns elementos estruturais se reproduzem ou mantém sua força. Grosso modo estamos considerando como estruturais aqueles elementos que mostram uma persistência histórica.

O primeiro elemento estrutural analisado é o nível de abstenção que deve se manter ou crescer um pouco. O histórico do índice de Abstenção, calculado para o segundo turno, quando houve, ou para o primeiro turno quando a eleição se resolveu na primeira rodada, é mostrado na Figura 1, com a evolução desse índice entre 1989 e 2018.

Observa-se que houve um período de queda entre 1994 e 2006. De 2006 até a eleição de 2018 o Índice de Abstenção tem crescido quase linearmente.

As pessoas que se abstém de votar em geral ficam alheias à movimentação eleitoral. Não participam de grupos políticos, não discutem, apenas se isolam. O que parece mover essas pessoas é a crença de que o destino do homem é traçado por Deus ou algo assemelhado. Como o índice varia em cada eleição, parece haver outras crenças que influenciam esse movimento. Provavelmente o desencanto com os políticos e com a política, que não conseguem entregar o prometido. O fator novidade pode influenciar esse índice, pois o desencanto é irmão siamês da esperança. O fator mitológico da crença no herói salvador é outro fator que pode influenciar esse índice, fazendo as pessoas comparecerem às urnas.

O peso da abstenção no cômputo geral das eleições é grande, por isso que o tratamos na Figura 1, em separado dos votos brancos e nulos.

Na Figura 2 trataremos dos votos brancos e nulos.

Primeiro temos que considerar a natureza ideológica dos dois tipos de votos: branco e nulo.

Quem vota em branco acredita que qualquer um dos concorrentes fará a mesma coisa, portanto, a sua escolha é pela indiferença.

Quem vota nulo acredita que nenhum dos concorrentes é digno de confiança e não farão nada do prometido, portanto o seu voto é de rejeição a todos. Algumas pessoas acreditam que se os votos nulos atingirem 50% +1 votos a eleição será anulada. Não é esta a base da jurisprudência do TSE. Haverá nova eleição se 50%+1 dos votos forem anulados por fraude ou violação das urnas, detectadas por processos inerentes à Justiça Eleitoral. Quem vota nulo rejeita todos os concorrentes, mas fez sua escolha. Não há justificativa para anular a eleição.

O índice de voto branco tem se mostrado estável. As pessoas que votam em branco em geral consideram que a melhoria de vida de cada um depende apenas do seu esforço pessoal. Não captam as possibilidades criadas pela via coletiva. Não são alimentadas pelo desencanto nem pela revolta, mas apenas pelo seu individualismo.

O voto nulo tem uma carga ideológica diferente do voto em branco. Em geral, são dados por pessoas que não confiam em outras, consideram todos os políticos iguais e aproveitadores da confiança dos outros. Não são inertes no debate político. São, em geral, aqueles que em qualquer encontro ou debate político levantam a voz criticando a todos. Influenciam os que estão propensos ao desencanto e a revolta. Fazem de sua própria história pessoal, ou melhor da interpretação que fazem de sua história pessoal, o centro de toda discussão. Também são individualistas, mas debitam todos os seus insucessos aos outros e à política em particular.

Ficando no meio termo das ocorrências anteriores, ficaremos entre 25 e 27% do total de votos nulos, brancos e abstenções. Dois alertas: a base desses números é uma simples projeção linear; a natureza da participação nas eleições sofre influência dos meios tecnológicos de comunicação, com os algoritmos de análise de comportamentos individuais e de massa sendo uma realidade que pode influenciar fortemente a escolha dos eleitores, inclusive o não comparecimento às urnas.

Figura 1 – Índice de Abstenção nas Eleições Presidenciais


Figura 2 – Abstenções, Nulos e Brancos


Entendendo Como se Alinham os Que Votam Prá Valer

Aceitando os números anteriores da projeção feita, teremos entre 73 e 75% do eleitorado que irá às urnas para fazer valer a sua escolha. Mas, antes de chegar na urna, há um percurso sinuoso para a canalização de cada voto.

Nesse percurso influenciam os 20% que participam do debate político continuamente. Estes já têm candidatos definidos e, regra geral, estão empenhados em “converter” os outros para sua escolha. Os 53 a 55% dos que entram no debate na fase da campanha propriamente dita serão influenciados pelos 20%, seja por amizade, confiança, laços familiares, dependência de emprego, ganhos pecuniários e afinidades ideológicas.

Nesse percurso de influência também entram: o fator novidade que tende a atrair muita gente; o fator ressentimento seja por questões diretas relacionadas à pessoa, seja por questões ideológicas; o fator religioso, que pesa muito nos grupos mais fanatizados e com comando forte; o fator mitológico da esperança e da figura de um salvador capaz de resolver os problemas concretos do cotidiano; os fatores imponderáveis e não imagináveis que surgem durante uma campanha eleitoral; o fator moralista que tem na corrupção o alvo moralista das grandes religiões monoteístas; os fatores identitários que norteiam as lutas ideológicas de grupos políticos e ideológicos.

Dizer que a maior parte do eleitorado quer mudanças não diz muito, se não conhecermos a motivação de cada eleitor em particular e como essas motivações se alinharão ao longo da campanha.

Vê-se, portanto, que não é fácil fazer previsões dada a quantidade de fatores que se cruzam na escolha do voto. Alguns algoritmos e pesquisas qualitativas podem auxiliar na garimpagem do voto, mas esses instrumentos e métodos são guardados a sete chaves por quem os detém.

Os fatores imponderáveis, ou as contingências, que na cultura ocidental são considerados como erros, tragédias ou algo a ser evitado, são inevitáveis. É evidente que os fatores imponderáveis podem mudar o rumo de uma eleição, mas como em qualquer aspecto da vida é impossível ao ser humano resolver as contingências na forma desejada. Algumas pessoas, particularmente políticos de alta perspicácia conseguem, na maior parte das vezes, “surfar na onda das contingências”.

Boa parte das pessoas não acredita que o destino está traçado e que as coisas acontecem segundo uma vontade divina. Acreditam, pois, no determinismo humano de que ações podem ser tomadas para direcionar as coisas na direção desejada. Os 20% que sustentam o debate político continuamente acreditam nisso. Os 53 a 55% que ainda entrarão no debate eleitoral não estão preocupados com essa questão. Decidirão o seu voto ao sabor das circunstâncias, dos fatores estruturais que os movem e de imponderáveis que surgirão durante o processo.

Quais Fatores Terão Peso na Eleição de 2022?

Os fatores imponderáveis são imponderáveis pela sua própria natureza. Não há muito que discutir ou fazer ilações.

Por exemplo, na eleição de 2018 criou-se um conjunto de circunstâncias que impediram que Lula concorresse à eleição. Visto de hoje, um impedimento nos moldes daquele de 2018 parece imponderável, mas caso ocorra, levará a um desencanto e “não-engajamento” muito maiores do que os índices históricos que observamos até agora. Trabalharemos com a hipótese de que haverá eleições e que Lula disputará o pleito.

Fatores como o “novo na política”, aquele político que rejeita o sistema parece imponderável nesse momento, mas há chance de isso acontecer. Lembramos aqui que os 52 a 55% dos eleitores não raciocinam pela lógica dos grupos organizados, sejam de direita ou de esquerda, e por isso podem ver o novo onde os iniciados veem o velho. Ciro parece apostar nessa perspectiva. Bolsonaro terá dificuldade de vestir tal figurino, mas vai tentar. Doria provavelmente tentará vestir esse figurino, com o discurso que se opôs a Bolsonaro e começou a vacinação em São Paulo à revelia dele. Se o anti-bolsonarismo tiver a força que aparenta ter, Doria poderá fazer um estrago na votação de Bolsonaro. Sergio Moro parece que vai apostar no discurso contra a corrupção com o ingrediente de que ele é o novo nessa disputa, mas esse discurso poderá ser facilmente alvejado pelos outros concorrentes. Fiquemos atentos que o discurso contra a corrupção tem raízes bíblicas, portanto, uma natureza mitológica muito forte.  

Lula aposta num figurino diferente: “sou político, tenho experiência, já fiz, farei melhor e o que trago de novo é a minha disposição renovada de trabalhar pelo povo pobre”. Para Lula, manter Sergio Moro na disputa é importante, pois dividirá parte do eleitorado que é “ficcionado no combate à corrupção e quer o novo”.

O fator ressentimento terá um peso grande nas hostes que acompanham Lula, ainda que Lula tente demonstrar a sua práxis política assumindo de fato que cada eleição tem sua própria dinâmica, pois muitos de seus seguidores terão dificuldade para enfrentar o debate político em círculos menores, principalmente com os desencantados e revoltados.

O fator religioso terá peso na escolha do voto, particularmente nos grupos mais fanatizados e com comandos fortes. Esses grupos seguirão o comando que for dado e não há muito a se fazer se esses líderes não forem “convertidos”. É evidente que a disputa pelo voto desses comandos religiosos será intensa. A dificuldade de diálogo com esses grupos se prende aos aspectos culturais e religiosos que se misturam com o discurso anticomunista, com o negacionismo e com dependência mitológica ao Velho Testamento. Lula terá dificuldade nesses grupamentos e na junção dos seus seguidores com esses grupamentos.

O fator mitológico da esperança e da crença em um líder salvador sempre tem peso em qualquer eleição. Esse peso remonta as raízes mitológicas da espécie humana. Todos os concorrentes buscarão explorar esses fatores mitológicos, mas parece que Lula tem uma vantagem nesse campo.

O PT enquanto partido político tem imagem forte no imaginário popular, seja a favor ou contra. Estruturalmente, ou historicamente, o PT tem tido uma presença marcante nas eleições presidenciais. Essa presença histórica pode ser mensurada pela votação nos candidatos do partido no primeiro turno das eleições presidenciais.

Desde 1989 o PT sempre capturou mais de 17% dos votos válidos para presidente no primeiro turno das eleições, particularmente nos pleitos em que o PT não estava no poder. Em 2018 o PT chegou a quase 30% dos votos no primeiro turno, com todos os artifícios que foram perpetrados contra o candidato. A Figura 3 abaixo mostra esse desempenho histórico.

Figura 3 – Eleições Presidenciais – 1989-2018


Conclusões Que se Pode Tirar

Há grande probabilidade de o PT chegar ao segundo turno das eleições presidenciais de 2022.

Ganhar a eleição presidencial de 2022 no primeiro turno é nesse momento uma previsão muito delicada. O número de fatores que se cruzam na decisão do voto é grande e a apreciação da reação das pessoas nessa escolha não encontra base de previsibilidade.

Todavia, é possível se avaliar que a possibilidade de uma vitória, seja no primeiro, quanto no segundo turno, dependerá da capacidade da candidatura do PT conciliar o atendimento aos vários fatores estruturais acima discutidos.

É difícil fazer previsões sobre uma possível vitória de Lula, principalmente no primeiro turno das eleições. Mais difícil ainda é fazer previsões sobre a governabilidade e o risco de golpe que poderá emergir após a eleição. Portanto, a tarefa imediata é fazer os acordos necessários para eleger Lula. Depois de eleito teremos outras batalhas e disputas, mas os instrumentos de poder à mão serão outros.

J. Ailton

Referências

A cultura política no Brasil | Politize! https://www.politize.com.br/cultura-politica-no-brasil/

O índice de participação e a importância da educação https://www.scielo.br/j/op/a/n5G4k5XZsj38sDMr5n35t9d/?lang=pt

Números do Cadastro Eleitoral confirmam o desinteresse do jovem brasileiro pela política https://oglobo.globo.com/politica/numeros-do-cadastro-eleitoral-confirmam-desinteresse-do-jovem-brasileiro-pela-politica-22940268

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