Algumas Notas Sobre a Guerra da Ucrânia
Estamos no décimo primeiro dia da guerra da Ucrânia (27.02.2022). Somos levados a pensar a quem serve essa guerra tendo em conta que a grande imprensa ocidental só apresenta uma versão: a dos EUA.
Vejamos alguns fatos importantes relacionados com a Alemanha.
A Alemanha tomou nos últimos dias a decisão de elevar o seu grau de militarização. O orçamento de 2022 para gastos bélicos alemães é de 53 bilhões de euros, que corresponde a 1,2 % do seu PIB. Em poucos dias o novo chanceler alemão aprovou uma cota extra de mais 100 bilhões de euros ao orçamento militar alemão, saltando para 3,2% do PIB, isto é, quase 3 vezes mais. Ainda aprovou que nos próximos anos o orçamento militar será de 2% do PIB, ou seja, próximo de 100 bilhões de euros por ano. Esse passo dado pela Alemanha é, francamente falando, uma retomada da militarização. Isto não poderia ser feito sem a complacência dos EUA. E a guerra da Ucrânia foi usada como álibi, habilmente pela Alemanha, para fazer essa reversão.
O Parlamento da Alemanha também aprovou a decisão de vender armas diretamente à Ucrânia sob o argumento de que não “pode deixar de socorrer a Ucrânia nesse momento desesperador”. Essa medida vale para a Ucrânia, mas vale também para a venda de armas em qualquer região em conflito.
A Alemanha é o quarto exportador de armas do mundo, atrás da China que ocupa a terceira posição. Com o reforço orçamentário haverá uma confortável expansão da indústria bélica alemã. Para a Alemanha a guerra da Ucrânia virou uma grande oportunidade de negócios e de aumentar seu peso na geopolítica mundial e europeia.
Interpretemos os fatos acima juntando-os com outros.
Biden e a União Europeia “provocaram” a situação da Ucrânia até chegar ao desenlace da guerra que presenciamos, pois interessava primeiramente aos EUA. É só observarmos os aplausos dados à Biden por democratas e republicanos, o partido único da guerra.
Para ter os argumentos necesários para “manter a ordem democrática” no mundo Biden precisava de uma guerra externa, contanto, que não fosse provocada diretamente pelos EUA. Além disso, os EUA gostariam de manter a União Europeia sob seu guarda-chuva protetor e isolada da Rússia e China, mas devidamente enfraquecida ou amedrontada, militar e comercialmente.
Diante dos fatos podemos dizer que a curto prazo Biden está atingindo os objetivos dos EUA, mesmo que a custa de uma militarização da Alemanha. Também é deditível que o jogo contra a Rússia não está saindo conforme imaginado pelo Pentágono e nem a União Europeia ficará inerte.
A União Europeia queria reduzir a sua dependência energética em relação à Rússia, mas sem cair em outra dependência, isto é, a dos EUA. O frenesi contra a Rússia foi, e está tão grande, que os preços das commodities energéticas dispararam. Os russos por sua vez estão silenciosos quanto as contramedidas às sanções econômicas que poderão tomar. O aumento da inflação criada pelo aumento de custos da energia poderá criar uma espiral de aumentos de custos com disrupção em algumas cadeias produtivas que não são susceptíveis a remédios monetários de curto prazo. Se o drama diário da guerra da Ucrânia começa a perder força, do ponto de vista da opinião pública, a inflação persistirá e a possibilidade de recessão na União Europeia é real e efetiva.
É bom lembrar que mesmo antes do início da guerra na Ucrânia a União Europeia já lutava diariamente contra o aumento de preços dos energéticos. As situações mais críticas, ou pelo menos mais conhecidas eram as da Alemanha, Reino Unido e Itália. Os EUA caracterizaram essas situações como fricções normais de mercado, mas o fato é que, por exemplo, na Alemanha quase 18 mil indústrias num universo de 28 mil, apontam os custos de energia como proibitivos para os seus negócios. As pequenas e medias empresas estão sob maior risco. Difícil aceitar isso como simples fricção de mercado.
A Ucrânia é apenas um instrumento nessa disputa pela manutenção do imperialismo americano-europeu e seu povo pagará um alto preço em vidas e privações.
Os EUA e União Europeia vão lutar até as últimas consequências para evitar a formação de uma nova ordem mundial multipolar. Para eles é preferível uma nova “guerra fria”. Só não é possível dizer se essa preferência se concretizará no atual estágio do capitalismo.
Por José Ailton - engenheiro eletricista, residente do Recife-PE
https://gruposuedcastrolima.org/algumas-notas-sobre-a-guerra-da-ucrania/
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