Posse de Lula 2023
No dia 1.o de janeiro de 2023, Lula foi empossado pela terceira vez como Presidente da República do Brasil depois de uma extenuante campanha eleitoral em que venceu o candidato Jair Bolsonaro, até então presidente eleito concorrendo pela re-eleição. Venceu por um triz, mas venceu, e isso acendeu as esperanças de meio Brasil, ou seja cerca de 60 milhões de brasileiros.
Como o ocupante da posição de presidente até então negou-se a entregar a faixa da presidência a Lula, seu arqui-rival, viajando para Orlando, nos Estados Unidos, dois dias antes da posse, a faixa foi entregue por representantes de todos os brasileiros, incluindo a cachorrinha Resistência, adotada por Janja, esposa de Lula, da vigília de Curitiba onde viveu durante a prisão política de Lula por 580 dias.
Brasileiros de toda parte do país viajaram muitos quilômetros de vários tipos de transportes para se juntarem na maior festa da Democracia desde as Diretas Já. O Comitê Popular de Luta Casa Forte esteve representado por vários membros que participaram de todas as festividades cheios de orgulho, principalmente por confirmarem que a luta de suas manifestações não foi em vão, ajudando a criar este grande acontecimento para a história do Brasil.
Cida foi a membro do Comitê que mais se destacou no registro deste evento e suas imagens estão aqui concatenadas neste vídeo editado mais uma vez pelo membro Denis num apanhado geral do que foi estar naquele momento histórico que aconteceu num dia quente de sol em meio a tantos chuvosos dias precedentes. O Comitê espera que todos gostem de curtir os momentos aqui registrados que, para os que não puderam estar presentes, represente uma lembrança de toda a união expontânea deste povo rico em cultura e diversidade, dando fim a uma era em que o ódio e as divisões eram estimuladas a partir das mais altas esferas administrativas do país.
2023 chega com grandes esperanças de imensas mudanças sob todos os aspectos para este povo sofrido depois de tantas catástrofes que vêm acontecendo no Brasil depois que o agora ex-presidente Jair Bolsonaro foi eleito por metade dos brasileiros ingênuos e enganados em 2018. O país reinicia uma nova era, em continuação aos dois mandatos anteriores do eterno presidente Lula seguido de sua companheira Dilma Rousseff que garantiram 14 anos de crescimento e projeção internacional.
E a história continua...
RAMPA DOS INVISÍVEIS
Por Cláudio Renato Passavante
Uma catadora de papel, um jovem com paralisia cerebral, um metalúrgico, um estudante preto de dez anos, um professor, uma cadela e o Cacique Raoni subiram a rampa do Planalto com o presidente Lula e a Janja.
Aline, a catadora, vestiu-se com a roupa de domingo, a que ela tem de melhor, para colocar a faixa presidencial no torso do maior líder popular do século.
No fim da cerimônia, com pérolas de lágrimas no olhar, Aline disse que ali estavam representados os invisíveis.
Quase ninguém viu quando o Aleijadinho chegou, braços entrelaçados com os de Oscar Niemeyer e Carlos Drummond de Andrade, admirados do mar vermelho, o oceano pacífico das gentes.
O almirante João Cândido e o marechal Rondon perfilaram diante dos Dragões da Independência. Continências devidas.
Abraçados a Raoni estavam Sepé Tiaraju, Chico Mendes, Bruno Pereira e Darcy Ribeiro, que, embriagado de felicidade e êxtase, gritava; "Assim, eu morro!"
Grande Otelo e Joãosinho Trinta caíam numa gostosa gargalhada!Noel Rosa, Pixinguinha, Ismael Silva, Cartola, Ary Barroso e Dorival Caymmi, em uníssono, proclamavam o que a baiana tem...
Carmen Miranda, por sororidade, preferiu seguir a Janja, ao lado de Chiquinha Gonzaga, Clementina de Jesus, Gal Costa. Ruth de Souza e Leila Diniz. Cantavam Coqueiro Verde, do Erasmo Carlos, na maior animação.
Pelé, Garrincha, Vinicius e Aldir Blanc, com a fantasia do Cacique tentavam romper o mau-humor do Graciliano Ramos, que só riu quando Jorge Amado lhe fez cócegas na barriga.
Brizola, Jango e Getúlio preferiram cavaquear perto do Lula, que percebeu a presença dos profetas Gilberto Freyre e Nelson Rodrigues e lhes soprou nos ouvidos: "Vocês são foda!"
Quando Aline passou a faixa no pescoço do Lula, foi ajudada pela mão invisível de dona Lindu e percebeu que a Marisa lhe ajeitava, carinhosamente, o colarinho.
Olhou para baixo, viu um menino lourinho de sete anos, sorridente e orgulhoso, dizer:
- Parabéns, meu avô!
https://www.instagram.com/p/Cm6gembL2fn/
POSSE E TRANSCENDÊNCIA
Por Frei Aloísio Fragoso
Estive presente na terceira posse de Lula. Lembrar este acontecimento como um simples registro histórico já valeria pelos 6 anos de espera e o preço de ansiedades que paguei por isso. No entanto, gostaria de expressar o que senti sem ver, o que transcende os fatos, a sua transfiguração. Algo semelhante ao que deve ter sentido o velho Simeão, segundo narra o evangelista Lucas. Quando Maria apresentou o Menino Jesus no templo, em obediência ao costume da época, ele tomou a Criança nos braços e exclamou: "agora, Senhor, pode despedir teu servo em paz, pois os meus olhos viram a salvação do meu povo" Lc.2,15-30.
Depois de tudo o que vi e ouvi em Brasília, no dia primeiro de janeiro de 2023, já me dou por bem vivido e com direito a partir em paz.Dias antes de viajar, fui advertido por alguns amigos: "traga capa de chuva, aqui em Brasília está chovendo todos os dias". Deu-se o contrário do previsto. No dia da posse o sol brilhou desde a manhã até a noite e nenhum pingo de chuva caíu na cidade. Mera coincidência, dirão muitos. Eu digo o que senti e juro que foi algo transcendental. Senti o efeito mágico de 300 000 vozes cantando em uníssono "o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu da pátria nesse instante".
O mar vermelho da cor predominante transmutou-se de imagem de um Partido político para a simbologia do sangue, sangue real de corações, veias e lutas, cor do martírio de heróis anônimos, do sacrifício cotidiano de um povo, sem o qual as cores da bandeira nacional esmaecem e viram ideologia neo-facista.
Os gritos ininterruptos de "olê, olê, olá" soavam como ecos de uma orquestra ensaiada em quatro anos de ansiosa espera e sofrida militância.
Desde o dia em que decidi participar desta posse, andei reprimindo uma sensação de medo, frente ao noticiário cotidiano de ameaças e violências. Esta sensação só cresceu logo que nosso avião aterrissou na Capital Federal e um grupo de passageiros se pôs a cantar "olê, olê, olê, olá, Lulá...." Contudo, no dia seguinte, a partir do momento em que nos acomodamos na Esplanada dos Ministérios e uma multidão incontável aglomerou-se em nossa volta, dissolveu-se o medo, naturalmente, como uma nuvem se dissolve, até desaparecer por completo. Nenhum sinal de tensão, somente emoção, alegria, expontaneidade. Nenhuma medida de segurança é capaz de impedir uma ação terrorista bem planejada. Só consigo entender este fenômeno como resultante de um energia coletiva, sublimada pela Fé, nutrida pela consciência do seu protagonismo histórico e projetada miticamente sobre a pessoa de Lula.
A culminância desta experiência mística veio em forma de surpresa, nos seus momentos finais: Lula subindo a rampa do Planalto, acompanhado por personagens representativos da população brasileira ( um índio, um negro, um deficiente físico, uma catadora de lixo, um operário de fábrica, uma trabalhadora doméstica, um professor universitário), sob o delírio e lágrimas da multidão. Foram estes os escolhidos para cumprir o rito solene de passar a faixa presidencial. E decerto o mundo inteiro entendeu o seu significado: era das mãos do povo que Luís Inácio Lula da Silva recebia o direito de governar a nação.
No dia seguinte, reunimo-nos em um pequeno grupo para uma avaliação e partilha. Não conseguimos descrever verbalmente o que presenciamos. Abraços e lágrimas substituiram as palavras. Mas será perenemente inesquecível o sentimento de que vivenciamos um capítulo transcendental da História do Brasil.
Brasília, 02/01/2023



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