Onde podemos chegar com a guerra na Ucrânia? Novas Notas e Recortes

Abstract: Seguimos neste texto fazendo algumas observações sobre a guerra na Ucrânia e os desdobramentos que poderão advir para o mundo. A conclusão do texto é inequívoca: o risco de difusão do fascismo pelo mundo afora é grande.

Em artigo anterior, “Notas sobre a Guerra da Ucrânia”, fiz uma série de considerações sobre o papel da Alemanha neste conflito. Agora, passados mais de seis meses do conflito, cabe uma nova reflexão com base em novos elementos que se evidenciam.

Em recentes declarações o Ministro do Comércio Alemão, Robert Habeck, afirmou que a Alemanha iria copiar o modelo de política da China para reduzir sua dependência econômica. Para isso, a Alemanha vai controlar os investimentos estrangeiros e se afastar da China no comércio de commodities básicas, tais como semicondutores, baterias e outros componentes eletrônicos.

Buscando dar um conteúdo ideológico a sua assertiva, Habeck completou que “a ingenuidade com a China acabou”. Afirmou que as relações comerciais não poderiam ser vistas isoladamente em relação às violações de direitos humanos e outras concepções internacionais. Possivelmente, referindo-se ao posicionamento da China frente à Taiwan.

Posicionamento semelhante tomou a Ministra de Relações Exteriores, Annalena Baerbock. O Chanceler Olav Sholz reforçou as provocações de seus ministros em relação à China.

Em linguagem de futebol, Berlin deu “cartão amarelo” para a China. Só que aqui tem uma diferença: Berlin não é o árbitro dessa pretensa partida de futebol. Teoricamente, o árbitro é as Nações Unidas que aceitou o princípio chinês de “dois países e uma só política”. Berlin, efetivamente está assumindo o papel de baderneiro dentro do campo.

Não se pode esquecer que EUA, Inglaterra, Austrália, França e Alemanha estão frequentemente fazendo

incursões militares em águas chinesas, elevando as tensões na região asiática e obrigando a China a posicionar-se em defesa de sua soberania, aí incluindo as suas legítimas pretensões em relação à Taiwan.

Qual é então a jogada dos líderes da Alemanha? A imprudência de suas posturas e os danos que estão causando à economia alemã levantam a seguinte questão: a quem estão servindo?

A Aleanha, que é o motor econômico-industrial da Europa Ocidental, está mergulhando na insana sabotagem de seus laços de comércio exterior, principalmente energia, com a Rússia.

O corte autoimposto de gás da Rússia, feito como sanção econômica, está demolindo a indústria alemã e empurrando a sua população para um inverno de frio, miséria e muitas dificuldades. Muitos analistas políticos estão perplexos com o abraço intencional que o governo alemão está dando no suicídio econômico.

Durante décadas o excedente de comércio exterior da Alemanha apoiou-se no gás e no óleo baratos fornecidos pela Rússia. Além disso, a indústria alemã é de base mecânica com mediano desenvolvimento tecnológico, daí sua dependência da China em relação aos semicondutores, baterias e outros componentes eletrônicos.

Ucrânia versus Rússia
Diante de tamanha dependência, seria de se esperar que a Alemanha buscasse reforçar os laços comerciais que garantem as suas cadeias produtivas e a sobrevivência do seu povo, particularmente, em relação ao frio que se aproxima. Se a Alemanha age contrariamente a essa lógica, seus líderes devem ter fortes convicções para suportar suas atitudes políticas.

Que convicções seriam essas dos líderes da Alemanha?

  • Que a Rússia será derrotada no confronto com a Ucrânia?
  • Que a China será dissuadida pela coalizão EUA-UE a abandonar suas pretensões de soberania e autonomia política, e particularmente em relação à Taiwan?

Também deveremos citar aqui um outro conjunto de convicções que devem estar norteando as atitudes políticas dos líderes da Alemanha, a saber:

  • Que a nova ordem monetária, entre China, Rússia, Índia e Irã não irá abalar a supremacia do dólar americano?
  • Que as populações da Europa Ocidental aceitarão passivamente uma situação de recessão econômica com um elevado risco de volta aos padrões de miséria e fome dos anos 20?
  • Que não há mais condições políticas para a volta do fascismo, e mesmo do eugenismo, em solo europeu?
  • Que o “Grande Reinício”, propalado pelo Forum Econômico Mundial, como uma grande coalizão de corporações multinacionais, será implantado com êxito e uma nova etapa de expansão do capitalismo será plenamente exitosa, sem dores e sem as carnificinas das I e II Guerras Mundiais?

A China é vital para os exportadores alemães. O óleo e o gás da Rússia são essenciais para a indústria alemã. Os líderes da Alemanha estão, inequivocamente, seguindo as apostas dos EUA na sua luta pela manutenção da hegemonia mundial. A Alemanha quer descarbonizar a sua economia, mas o cálculo que estão fazendo é falho. A Alemanha não tem condições de caminhar sozinha e os conflitos que ela está armando vão deixá-la isolada de suas fontes de matéria prima, energia e outros insumos.

O Governo Biden e o Congresso dos EUA estão inundando de armamentos a Ucrânia e Taiwan numa lógica deliberada para provocar uma confrontação militar de grande porte. Todavia, os EUA não terão sucesso nessa estratégia, se não houver cooperação de alguns aliados que compõem a grande economia ocidental. Neste momento, a Alemanha faz esse papel e isto pode custar caro, muito caro, ao povo alemão e ao mundo.

O inverno está chegando com o medo do frio se propagando entre a população alemã e europeia de uma forma geral. As bases para restauração e mesmo novos surgimentos de regimes fascistas, conforme enunciava Karl Polanyi, em 1940, em seu livro a “A Grande Transformação” estão dadas. O perigo é muito maior do a guerra na Ucrânia e as tensões em Taiwan nos fazem ver.

José Ailton Lima

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